Parque Fernanda, extremo sul de São Paulo
Cresci em um lugar onde nada chega sozinho. Aprendi cedo que quem espera pela oportunidade perfeita fica esperando, e que quase tudo se resolve com uma troca honesta.
A minha primeira negociação comercial não teve contrato nem proposta. Eu consertava os computadores da escola e, em troca, a mensalidade parava de ser um problema. Era um acordo simples, e funcionava porque os dois lados ganhavam algo de que precisavam de verdade. É a mesma lógica que eu uso hoje para desenhar oferta: se um dos lados precisa ser convencido, o desenho está errado.
Servidores corporativos, e a régua de quem não pode cair
Comecei em tecnologia corporativa, cuidando da infraestrutura de mensageria da BlackBerry no Brasil. Naquele momento, o aparelho era o cordão umbilical de diretoria e jurídico de empresa grande. Se o servidor caía, não era um incômodo, era uma companhia inteira sem conseguir trabalhar.
Foi ali que eu peguei a régua que carrego até hoje: sistema sério tem plano de queda, tem registro do que aconteceu e não depende de ninguém estar acordado. Quem aprende a operar assim não consegue mais achar bonito processo que só funciona quando dá tudo certo.
Da infraestrutura para a mídia, sem trocar de cabeça
Migrei para mídia digital pela porta técnica. Comecei na boo-box, aprendendo o jogo por dentro, e depois liderei operação e AdNetwork na RedMas. Enquanto boa parte do mercado discutia criatividade, eu estava olhando para entrega, inventário e log. Continuava sendo infraestrutura, só que o produto agora era atenção.
Depois vieram os anos de construir produto na fronteira entre CRM e mídia, para marcas como P&G, Burger King, Electrolux, Ambev, Bradesco, BuzzFeed e Banco Inter. Operações grandes, muitas frentes ao mesmo tempo e orçamento que não perdoa.
A lição que ficou não é sobre canal, é sobre governança: operação grande quebra por falta de combinado escrito, não por falta de talento. Quando a estrutura depende de uma pessoa lembrar de alguma coisa, ela já está quebrada, só ainda não deu o defeito.
Vinte anos de porta abrindo no horário
Em paralelo à carreira corporativa, sempre toquei operação própria no entretenimento. Casa cheia, fila na calçada, equipe grande e um horário que não se negocia. Não existe adiar a abertura porque o sistema está instável.
É a escola mais dura que eu tive, e a mais útil. Ao vivo, processo frágil não sobrevive ao primeiro sábado. Ou o combinado está escrito e a pessoa da ponta consegue decidir sozinha, ou vira gargalo em cima de uma única pessoa. Aprendi a construir os que aguentam porque os que não aguentavam quebraram na minha frente.
Produtos que fazem a empresa produzir mais, melhor e mais rápido
Hoje eu transformo esses vinte anos em produto. Não em palestra e não em apresentação: em sistema que entra na operação e fica funcionando depois que eu saio da sala.
A minha frente atual é produtividade com inteligência artificial dentro de empresa, que é onde a distância entre a promessa e o resultado é maior. A ferramenta quase nunca é o problema. O problema é que ela recebe contexto genérico, ninguém escreveu o que a empresa sabe, e o ganho nunca é medido de verdade. É sobre isso que eu escrevo, e é isso que os materiais gratuitos resolvem.
O que eu aprendi e não abro mão
- Opinião só entra depois do número. Antes disso é preferência, e preferência não paga conta.
- Prazo não é meta, é regra. Vinte anos de porta abrindo no horário não deixam espaço para outra interpretação.
- O combinado precisa estar escrito. O que só existe na cabeça de alguém não é processo, é sorte.
- Ideia sem execução é custo. A parte difícil nunca foi ter a ideia, foi colocar de pé e manter funcionando.
- Ganho que não é medido não sobrevive ao primeiro corte de orçamento. E quase ninguém mede direito.